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SÍNDROME DE SHIHAN
OU COMO SUCUMBIR AO LADO NEGRO DA FORÇA
Todos aqueles
que chegam à faixa-preta já experimentaram a dureza que este caminho
exige.
Penso que
ninguém, ao começar, levou a sério a possibilidade de tornar-se um
yudansha (detentor da faixa-preta).
No inicio você
não sabe nem como se portar, o que dizer e, principalmente, como
ficar calado.
Mas o tempo
passa e você descobre que já não é mais um novato e que outros estão
agora tentando aprender o que para você, hoje, é obvio, de tão
natural.
Começa a
crescer em você o monstro do ego inflado. Você passa a ser
responsável por auxiliar nas aulas, dando um pequeno auxílio ao
professor, normalmente preocupado em atender especialmente os
iniciantes.
É difícil, mas
seu professor alerta a todos da tentação de sentirem-se superiores,
(geralmente acompanhando a fala com uma demonstração bem pequena do
quanto você ainda precisa estudar e se desenvolver).
Chegam os
exames, após um tempo e você está tão absorvido em aprender as
técnicas mais avançadas dos kyus (graduações abaixo da faixa-preta)
que algumas vezes esquece de ajudar seus colegas mais novos, pelos
caminhos que você mesmo até bem pouco tempo percorreu com
dificuldade.
Aí chega o
principal exame da sua vida na arte marcial, aquele do qual você
nunca esquecerá: na frente de seus sempai, de seus mestres,
professores e até mesmo dos novatos você arfa, transpira e exulta
quando lhe pedem, finalmente, para cumprimentar seu parceiro e
retornar ao seu lugar.
Neste momento
em que você é reconhecido como mais um faixa-preta do seu grupo é
que a receita pode desandar.
A tentação é
forte; tão forte que seu espírito, que parecia forjado pelas
orientações, broncas e esforço de seu professor pode fraquejar, e
aí, sem você se dar conta, se instala uma doença mais ou menos
fatal: A síndrome de shihan, que consiste numa (quase) irresistível
tentação à:
1- Após
pesquisar, “descobrir” um meio mais “eficiente” de realizar uma
técnica: mais eficiente até do que a forma como seu mestre faz;
2 – Colocar a
prova suas pesquisas apenas nas condições controladas por você:
apenas com seus amigos e possíveis alunos;
3 – Deixar
mais ou menos claro, que chegou aonde está por esforço próprio,
expondo as “mazelas” da atuação do seu anteriormente modelo que foi
seu professor;
4 – Dificultar
sempre que alguns alunos ou desafetos lhe façam uma técnica: (ora,
tem se de manter minha posição!)
5 – Acostumado
a ter a última palavra, agora nosso guerreiro já nem presta atenção
às palavras ou aulas do mestre: está se “desenvolvendo” em um
“caminho próprio”, ainda que não diga isto abertamente;
6 – Sua busca
de autonomia não vê limites; seu mestre, (ex)modelo e referência
torna-se quase um estorvo, dentro de seu novo e limitado modo de
entender o desenvolvimento;
7-As
avaliações sobre seus alunos só são acuradas quando feitas por si
mesmo. Para ele outros professores não são capazes de perceber as
sutilezas que indicam o desenvolvimento maduro de seus
alunos.
Enfim, a
síndrome de shihan é uma doença que ilude suas vitimas a acreditarem
que, após certo tempo, suas pesquisas (e elas mesmas) estão acima de
quaisquer considerações hierárquicas ou simples bom senso.
Se uma mudança
dá certo no limitado círculo de seus alunos, por ele é considerada
como dogma a ser consagrado.
Ora, seu
mestre não só acumula muito mais tempo no caminho da arte, como
exerce seus estudos e pesquisas com dezenas ou centenas de alunos,
iniciantes e graduados, tanto em seu próprio dojo quanto em cursos e
seminários. Nesse ínterim, o mestre vai separando as técnicas que
serão revistas/aperfeiçoadas, com o cuidado de quem trata uma
preciosa herança, pois tem consciência de que este também será seu
legado.
Após cingir-se
de preto, o praticante deve meditar e refletir, de forma consistente
sobre quão enganosa pode ser a tentação de ter, sempre, a ultima
palavra...
Seria o caso,
então, de encerrar a pesquisa somente nas mãos do mestre? Certamente
que não. Isso negaria a chance de ouro de, nas dúvidas surgidas,
haver o verdadeiro crescimento: Aquele fruto de experiências
compartilhadas, fraquezas equacionadas e a certeza de muito chão à
frente!
J.S. Júnior Instrutor de Aikido Grupo SHIKANAI
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